segunda-feira, 31 de maio de 2010

El ratón



El ratón tem orelhas de ratón. Vive nas catacumbas de um prédio inválido onde armazena 20 tipos de queijo diferentes, roubados com toda a manha de um pequeno roedor francês. Oui, lui-même, nascido e desenvolvido em Paris, com nome atribuído pela máfia espanhola de rataria do bairro. Apara por hábito os bigodes com lâmina afiada na barbearia-moderna-que-sei-lá e usa o pêlo lambido a brilhantina por baixo de uma camiseta axadrezada. De sovaco com desodorizante barato, desliza canos acima dia sim dia sim para lançar charme às quatro patas mais cobiçadas do pedaço – o Jacques. «Ó Jacques, deixas-me o coração em fanicos. Guincho à noite o atirei o pau ao gato para te deixar feliz e nem pipoca para mim. Ó sina não assinada… ó fortuna desafortunada… ó destino desatinado», lamuria-se. E joga os braços em ar desamparado enquanto cai de corpo mole no chão, triste como só ele, morrendo de amor. Com rabiosque a balançar e muitos suspiros no peito, deixa-se à espera dias e horas sem fim até ouvir um sinal de presença do seu querido «requeijão». Ao mínimo som a orelha arrebita e lá vão as quatro patitas do ratón a velocidade de torcicolo para uma nova investida ao «Jacques, mon amour, acumulei quilos de saudades desde que saíste [há cinco minutos, acrescento eu]. Queres deixar-me entrar, queres, queres? Só um bocadinho para dois piscar de olhos de conversa…» E Jacques deixa, pela primeira vez na vida peluda do nosso protagonista. Com a boca pingona de baba feliz e com o coração a palpitar cavalos a galope, o ratón dirige-se desalmado para a porta do seu bem amado. Corre, corre, ratón, corre. Mas com tanta velocidade escapam-se-lhe as patas para um buraco. Cai, cai, ratón, cai. Foi parar a um contentor destinado à China, selado e carimbado, com partida imediata. «Ó, Jacques…»

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Amor de Índio

Tudo que move é sagrado
e remove as montanhas
com todo o cuidado, meu amor.
Enquanto a chama arder
todo dia te ver passar
tudo viver a teu lado
com arco da promessa
do azul pintado, pra durar.

Abelha fazendo o mel
vale o tempo que não voou
A estrela caiu do céu
O pedido que se pensou
O destino que se cumpriu
de sentir seu calor
e ser todo
Todo dia é de viver
para ser o que for
e ser tudo

Sim, todo amor é sagrado
e o fruto do trabalho
é mais que sagrado, meu amor.
A massa que faz o pão
vale a luz do teu suor
Lembra que o sono é sagrado
e alimenta de horizontes
o tempo acordado, de viver.

No inverno te proteger, no verão sair pra pescar
no outono te conheçer, primavera poder gostar
no estio me derreter
pra na chuva dançar e andar junto
O destino que se cumpriu
de sentir seu calor e ser tudo.


De Maria Bethânia
Composição: Beto Guedes e Ronaldo Bastos

Princesa, mas pouco


Era uma vez uma princesa
Que tirava macacos do nariz
Com as suas unhas pintadas
Com o mais caro verniz

Era uma vez uma princesa
Que tinha um vestido roto
E sempre que comia
Libertava um forte arroto

Era uma vez uma princesa
Com lindos caracóis ondulantes
Mas no seu cabelo seboso
Os piolhos eram abundantes

Era uma vez uma princesa
Que tinha um belo sorriso
Expulsava alegremente gases
Sem qualquer aviso

Era uma vez uma princesa
Da mais fina educação
Por onde passava
Sujava sempre o chão

Era uma vez uma princesa
Que tinha imensos casacos
Mas sempre que os usava
Cheirava mal dos sovacos


Poema do Moço do Barrete
(amigo das mimalhas)

Desenho da Olive Oil
(mimalha em pessoa)

terça-feira, 4 de maio de 2010

Tchim-tchim!


Ela não é pessoa, mas ele é. Encontram-se os dois a meio caminho do café onde habitualmente tomam bagaço. Seguem juntos pela calçada, livro armado debaixo do braço, cruzando pombos e putos em brincadeira com pistolas de água. Apaixonaram-se ainda ela não tinha olho esquerdo, nem trança de lã, e ela jura ter sido de dia - ele argumenta que não, foi numa noite cerrada. E nesse dia (ou noite) saiu da boca inesperada do macho o amor é fogo que arde sem se ver... Ela espevitou como a pevide quando o casaco dele começou a deitar fumo e a largar chamas. Afinal o amor via-se (apesar de ter sido ateado por um fósforo). Foi nesse momento que decidiram juntar os trapos, literalmente no caso dela, e descer avenidas camões para celebrar a vida nos copos das tabernas. Tchim-tchim!